domingo, 26 de outubro de 2008

O que são as "feridinhas" do colo do útero

Olá meninas! Este post é um desabafo meu como médica ginecologista que prima pela boa formação médica. O que muitos colegas ginecologistas fazem chega a ser um crime, submetendo meninas como vocês a procedimentos desnecessários e agressivos para tratar uma doença que não existe. Vou falar da "feridinha" no colo do útero. Para isso, é preciso entender como funciona a anatomia e a fisiologia deste órgão tão importante para nós.
O colo do útero é uma estrutura alongada que liga a vagina (e, portanto, o meio externo do corpo) à parte superior do útero, chamada corpo uterino. Esta estrutura possui um canal (canal endocervical) com dois orificios; o orifício externo está em contato com a vagina e o interno com o corpo uterino. Existem dois tipos de tecido diferentes que revestem este órgão; o tecido escamoso reveste a parte do colo em contato com a vagina e o tecido glandular reveste o canal do colo do útero. Pelas mudanças hormonais que a mulher sofre ao longo da vida, o tecido glandular pode se localizar em vários pontos do canal endocervical e sair para fora do orifício externo do colo, sendo possível sua visualização quando fazemos o exame ginecológico. Como este tecido é de coloração avermelhada e irregular, apresenta um aspecto de "ferida", diferente do tecido escamoso que reveste o resto do colo. Por isso, meninas, esta "ferida" não deve ser chamada assim; o nome correto para isso é ECTOPIA e não deve ser tratada como uma doença, pois nada mais é do que a presença de um tecido normal do colo do útero fora do seu local de origem. E o que acontece com este tecido??? Como é um tecido mais sensível, ele não resiste as agressões naturais da vagina, como acidez, presença de bactérias e traumatismo na relação sexual, o próprio organismo leva a uma transformação deste tecido glandular em tecido escamoso, que é o tecido mais adaptado ao ambiente vaginal. À este processo, denominamos metaplasia (que pode aparecer no papanicolau - mas não se preocupem pois isso é um processo NORMAL do organismo). Com isso, o colo vai sendo recoberto novamente por tecido escamoso, mas, ao longo da vida, pode ocorrer nova ectopia do tecido glandular e novo processo de metaplasia, e por ai vai.
E quando essa ectopia representa perigo?? Muitas bactérias e vírus preferem infectar justamente o tecido glandular que, se estiver mais exposto, pode favorecer infecções por bactérias como Gonococo e Clamídia. Já o HPV gosta de infectar justamente o tecido metaplásico (o de transformação). Por isso, é super importante continuar usando camisinha sempre. Além disso, se a ectopia for muito grande, pode ocorrer sangramento nas relações sexuais, já que este tecido é mais sensível à traumas; por tratar-se de um tecido produtor de muco, mulheres com ectopias grandes podem apresentar um excesso de corrimento mucóide.
Portanto meninas, a ectopia só deve preocupar e necesistar de tratamento quando causar um destes desconfortos. A simples visualização deste tecido no exame ginecológico sem que a mulher apresente qualquer alteração NÃO justifica tratamento.
E por falar em tratamento, quando necessário, o procedimento utilizado é a eletro ou criocauterização do colo do útero. Trata-se da destruição do tecido glandular do colo, o que acalera o processo de metaplasia, transformando a área em tecido escamoso dentro de 30 a 40 dias (período de cicatrização). Este procedimento é realizado no consultório médico sob anestesia local (injetamos anestésico no colo do útero) de forma muito rápida, permitindo o retorno às atividades normais no mesmo dia. Após, usamos um creme vaginal cicatrizante e orientamos repouso sexual por 30 a 40 dias. Este procedimento não é isento de riscos, e pode causar fibrose excessiva do colo, dificultando sua dilatação no parto, ou estenose (fechamento) do canal endocervical, dificultando futuras gestações. O uso somente de cremes ginecológicos contendo antibióticos ou cicatrizantes não é efetivo para o tratamento de ectopias.
Existe um número abusivo de indicações de cauterizações do colo, a maioria totalmente desnecessária. Muitos médicos ainda não têm conhecimentos atualizados sobre a biologia e patologia do colo do útero, indicando procedimentos obsoletos e agressivos. É direito do paciente questionar a indicação e realização de procedimentos médicos.
Fiquem atentas e ótima semana!