Acabei de chegar de uma jornada de Ginecologia Endócrina promovida pelo departamento de Ginecologia da USP de Ribeirão Perto. Um dos pontos altos da jornada foi a palestra proferida pela Prof. Dr. Ana Carolina Sá que falou das novas perspectivas na preservaçaõ da fertilidade, em especial em mulheres com diagnóstico de câncer que serão submetidas a tratamentos com possível toxicidade para o ovário, limitando assim o futuro reprodutivo destas pacientes.
Sabe-se que o câncer é a segunda doença que mais mata em países desenvolvidos, perdendo somente para as doenças cardiovasculares. Uma infinidade de tipos de cânceres pode acometer mulheres em idade reprodutiva e o tratamento destas doenças pode incluir quimioterapia e radioterapia, com possível ação deletéria na função do ovário. O ovário é um órgão extremamente sensível a ação de quimioterápicos e, dependendo do tipo, do tempo de uso e da dose, a quimioterapia pode levar a danos na sua função que variam de leves e transitórios a permanentes. Assim, essas mulheres, além de enfrentar uma doença terrível, podem se ver na terrível situação de perder a função do seu ovário e assim, da possibilidade de gestar.
O uso de algumas medicações para proteger os ovários durante o uso da quimioterapia foi testado, mas nehuma medicação realmente tem esse poder. Destaca-se um grupo de medicamentos chamados "análogos do GnRH" que bloqueiam a função do ovário durante o seu uso, induzindo a amenorréia (ausência de menstruação). Estas drogas poderiam ter efeito benéfico, mas nada foi comprovado ainda. Pelo menos a mulher estaria protegida da espoliação sanguínea que ocorre no período menstrual durante o tempo da quimioterapia, prevendindo anemias.
Outra possibilidade é realizar uma fertilização in vitro (FIV) antes da quimioterapia, fazendo com que embriões sejam formados e, sendo congelados, poderiam futuramente ser implantados no útero, quando a mulher já estiver livre do câncer. O problema é que a FIV tem alto custo, pode ser um processo demorado (em torno de 1 mês - e nem sempre uma mulher com câncer pode esperar um mês para iniciar seu tratamento), é necessário ter um parceiro ou aceitar fazer embriões com esperma de doador e não pode ser usada em mulheres com tumores sensíveis à ação do estrogênio (p. ex. câncer de mama), já que durante a FIV altas doses de estrogênio são usadas para estimular a ovulação.
Daí é que vem a novidade: cada vez mais técnicas de congelamente de oócitos (óvulos) estão se aperfeiçoando e se aproximando do uso rotineniro na prática médica. Com esta técnica, poderia-se estimular a superovulação (como na FIV) e, após captar os oócitos, estes seriam congelados para uso posterior, não havendo necessidade de ter um parceiro ou de ter que formar um embriãozinho. Além disso, também têm-se estudado o congelamento de fatias de ovário ou até mesmo de todo o ovário, com posterior implantação deste tecido no corpo e reestabelecimento da sua função (tanto reprodutiva quanto hormonal). Estes fragmentos poderiam ser implantados em vários locais do corpo, não necessariamente dentro da pelve. Há relatos de implantação no antebraço, na perna, no abdome.
Enfim, se estas técnicas estão sendo usadas para mulheres que certamente sofrem uma falência ovariana secundária a um tratamento tóxico para o corpo, podemos extrapolar o uso destas técnicas para mulheres que simplesmente estão envelhecendo e adiando o sonho de ser mãe para uma fase da vida quando naturalmente os ovários já terão sofrido as alterações de atresia próprias do envelhecimento. Assim, quem sabe no futuro poderemos congelar nossos oócitos, ou um pedaço do ovário, e adiar nosso sonho de ser mãe para qualquer fase da vida, e assim poderemos nos dedicar aos nossos projetos e sonhos e realizar o sonho de ser mãe no momento de vida mais conveniente para nós, sem nos preocuparmos tanto com nosso relógio biológico.
Obviamente tudo isso é, hoje, muito utópico, e acredito também que temos que obedecer às leis da natureza, pois ela é sábia; mas quando a vida tem cursos que não nos permitem realizar sonhos hoje, a medicina pode auxiliar e trazer novas perspectivas antes inimagináveis. Com certeza em dez anos estas técnicas serão todas realidade rotineira, alargando as possibilidades em relação à capacidade de gerar filhos em idades mais avançadas da vida.