domingo, 24 de abril de 2011

Candidiase Vulvo-Vaginal (CVV) - quase todas nós sofreremos deste mal

Olá meninas! Voltei a falar de Candidíase pois muitas de vocês me mandam e-mails e mensagens querendo saber mais sobre o assunto. Realmente, apesar de todo o avanço da medicina, a CVV ainda continua muito prevalente e, só quem já teve a infecção sabe como ela é incômoda.
Para começar, é importante dizer que algumas de nós temos a Candida como um fungo que habita nossa vagina, fazendo parte da nossa flora vaginal normal, SEM CAUSAR SINTOMAS. Nestes casos, não há uma infecção realmente e não há necessidade de qualquer tratamento. Por isso, se no Papanicolau de vocês estiver lá a tal da Candida, se não houver sintomas não é necessário qualquer tratamento, pois isso não vai resultar em nada, uma vez que a colonização pelo fungo persistirá.
A família da Candida é grande. A maioria das CVV são causadas pela Candida albicans ( 80 a 92%), mas outras podem estar presentes: Candida glabrata, tropicalis, Krusei, Parapsilosis e Saccharomyces cerevisae. Isso é importante quando formos falar de tratamento.
Qualquer mulher pode ter um episódio de CVV na vida, mas algumas tem episódios recorrentes. Definimos CVV recorrente quando ocorrem 4 ou mais episódios ao ano; além disso, algumas mulheres têm CVV complicada, que englobam os casos recorrentes mais os que não melhoram com os tratamentos convencionais ou os casos muito severos. As com CVV recorrente ou complicada geralmente apresentam algum destes fatores de risco: diabetes, gravidez, excesso de estrogênio ( como no uso de anticoncepcionais), doenças ou tratamentos que reduzem a imunidade ( HIV, quimioterapia, uso crônico de corticóides, doenças crônicas debilitantes), uso de tamoxifeno, uso de antibióticos por tempo prolongado, hábitos alimentares e vestuário que propiciam o crescimento do fungo e auto-medicação inapropriada.

Os sintomas da CVV são típicos e se apresentam como coceira na vulva/vagina, ardência, corrimento grumoso sem odor, dor à penetração vaginal e ardência ao urinar na parte externa da vagina. Quando o médico examina a mulher, geralmente encontra uma vulva/vagina muito vermelha, com fissuras, corrimento grumoso aderido à parede vaginal em placas ( como se fosse um queijo ricota) e inchaço. Lembramos que nem sempre estes sintomas devem-se a CVV e muita mulheres costumam se auto-medicar,fazendo tratamentos inadequados. Reações alérgicas, liquen escleroso, herpes genital, e vulvites químicas podem ter sintomas semelhantes. O ideal é o médico ver.
pseudo-hifa vista ao microscópio
Além do exame clínico, o médico pode fazer outros exames para confirmar a CVV. O mais fácil de ser realizado, com resultado na hora, é a análise do material colhido na vagina colocado em uma lâmina junto com uma gota de uma solução de KOH e examinado no microscópio (este exame é chamdo de "exame a fresco"). O que se vê é a presença de pseudo-hifas, que são as estruturas da Candida. Se o exame a fresco for negativo, culturas específicas podem ser realizadas colhendo-se material do fundo da vagina com um swab; isso é altamente recomendado nas CVV recorrentes ou complicadas. O pH vaginal também pode ser medido com uma fita que se encosta na parede vaginal. Nas CVV o pH é normal ou ácido( menor que 4,5) e esta informação pode ajudar no diagnóstico diferencial com outras infecções vaginais.

A mudança dos hábitos de vida é importante para reduzir o número de episódios de CVV, especialmente no verão, quando as altas temperaturas e umidade excessiva facilitam a proliferação do fungo. É importante usar produtos higiênicos hipoalergênicos e não irritantes, com mínima ação na microbiota vaginal normal. Sabonetes íntimos com estas propriedades são largamente vendidos no Brasil. O vestuário deve priorizar a ventilação da região genital, evitando-se roupas justas e sintéticas. Dormir sem calcinha pode ajudar.
O uso de soluções com bicarbonato de sódio pode aliviar os sintomas, uma vez que o pH ácido favorece a CVV; esta receita caseira realmente funciona e pode ser usada quando outras infecções concomitantes forem afastadas.
Em algumas situações, quando a CVV está relacionada ao uso de anticoncepcionais, pode-se discutir a redução da dose de estrogênio da pílula.
O tratamento medicamentoso deve ser realizado por uma única via - oral ou vaginal, mas se houver infecção mista, com outros agentes concomitantemente, pode-se fazer o tratamento de cada agente usando vias diferentes. NÃO HÁ NECESSIDADE DE TRATAR O PARCEIRO, a não ser que o mesmo esteja com sintomas.
Um episódio isolado de CVV pode ser tratado efetivamente com terapia em dose única ou terapia curta, atingindo eficácia em torno de 90% ( Via Oral: Fluconazol 150 mg DU; Itraconazol 200 mg 12/12 h 1 dia; Cetoconazol 200 mg 12/12 h por 5 dias; Via Vaginal: Butoconazol 2% DU, Clotrimazol  por 3, 7 ou 14 dias,  Miconazol 7 dias, Tioconazol DU, Isoconazol DU ou 7 dias, Fenticonazol DU ou 7 dias, Nistatina por 14 dias). A resposta à estas medicações é muito semelhante e a escolha dependerá do perfil da paciente, experiência do profissional e disponibilidade da medicação.
Lembrar que inicialmente pode haver uma piora dos sintomas, pois os medicamentos podem causar uma irritação inicial, mas isso não significa que o quadro esteja piorando.
Quando os sintomas na área externa da vulva forem intensos, ou quando a micose se expandir para a raiz da coxa ou região perianal, pode-se associar um creme externo com corticóide para amenizar os sintomas.
Nas CVV complicadas o tratamento deve constar de creme vaginal por pelo menos 7 dias ou múltiplas doses de fluconazol.  Nas Candidas não-albicans, especialmente a glabrata, pode não haver qualquer melhora com os tratamentos convencionais e neste caso pode-se usar o ácido bórico em forma de óvulos vaginais por 14 dias, creme com Anfotericina B por 14 dias ou a Nistatina por 14 dias.
Nas CVV recorrentes, que são causadas pela Candida albicans, portanto sensíveis aos medicamentos mais usuais, o objetivo é controlar os fatores de risco, tratar por tempo prolongado o episódio atual ( 10 a 14 dias) e manter tratamento por 6 meses com Fluconazol.
Lembrar que na gravidez o uso destes antifúngicos orais não é recomendado, preferindo-se o tratamento com os cremes vaginais de Nistatina ou Clotrimazol.
Um recado importante: se você está apresentando sintomas compatíveis com CVV, evite a auto-medicação e procure seu médico para uma avaliação mais precisa, ok!

Uma ótima Páscoa a todas! Bjos.