sábado, 20 de agosto de 2011

Síndrome da Bexiga Dolorosa - uma afecção de difícil diagnóstico e tratamento

Você já ouviu falar desta doença? Se não, provavelmente em breve você ouviria falar, pois está cada vez mais em "voga". Á medida que a medicina vai avançando, novas doenças vão sendo descobertas, e a Síndrome da Bexiga Dolorosa (SBD, ex-cistite instersticial) é uma destas doenças que até pouco tempo atrás nem existiam. Isso não quer dizer que sabemos tudo sobre ela, pelo contrário.... a SBD é uma doença misteriosa, sem causa explicável, crônica, de difícil diagnóstico e tratamento.
A SBD é uma doença inflamatória crônica da bexiga, que causa dor pélvica ou na bexiga há mais de 6 meses, geralmente relacionada ao enchimento da bexiga, associada a outros sintomas urinários, como urgência miccional ( forte desejo de urinar, súbito) e aumento na frequência ( maior número de micções por dia). É 30 a 50 vezes mais comum em mulheres, com prevalência na população geral de 0,3 a 0,6%. É mais comum na raça branca. Está associada a outras doenças, como Síndrome do Intestino Irritável, Fibromialgia, Lúpus, Doenças Inflamatórias Intestinais, Síndrome de Sjogren.
Existem várias teorias para explicar a etiologia da SBD. Não se sabe exatamente qual é o defeito, ou se vários problemas estão associados ( parece que sim), mas sabe-se que ocorre um aumento da permeabilidade do urotélio, que é o tecido que reveste internamente a bexiga, por falta de uma substância que serve como uma camada protetora, chamada glicosaminoglicanos. Pela falta desta substância, as substâncias irritativas que estão presentes na urina ( principalmente o potássio) irritam a camada da bexiga abaixo do urotélio, que é muito rica em estruturas nervosas, levando a liberação de substâncias inflamatórias que vão causar uma inflamação neuropática. Isso gera um sintoma doloroso intenso, que está relacionado ao enchimento da bexiga.
Para diagnosticar a doença, é preciso estar atento aos sintomas dolorosos e a mudança no padrão de frequência e urgência para urinar. Para se ter uma idéia, mulheres com SBD têm, em média, 17 a 25 micções por dia!! É preciso excluir infecções urinárias, cálculos, neoplasias. O diário micional ( registro das micções ao longo do dia) mostra, além da frequência urinária alta, um baixo volume urinário.
Os exames complementares indicados são:
1. urina 1 e urocultura: excluir infecção ou cálculos
2. Estudo Urodinâmico ( estudo do funcionamento da bexiga nas fases de enchimento e esvaziamento): na SBD há importante dor na fase de enchimento vesical, com diminuição da complacência e baixa capacidade cistométrica.
3. Cistoscopia ( visualização da bexiga através de ótica inserida dentro dela): exclui outras doenças; na SBD avançada pode haver a formação das Úlceras de Hunner, que são pontos vermelhos e glomerulações na parede da bexiga - ocorre em menos de 5% dos casos, mas a sua retirada, se presente, melhora muito a sindrome dolorosa.
4. Teste do KCL: injeção de KCL dentro da bexiga e observação do aparecimento de dor importante durante e após a injeção- não é mais recomendado para diagnóstico da doença.

Tratamento: existem inúmeros tratamentos propostos para a SBD, mas nenhum deles têm mais de 70 a 80% de taxa de sucesso. Algumas medidas simples alimentares pode reduzir muito os sintomas dolorosos, como evitar bebidas ácidas, alimentos condimentados, cafeína e álcool. O treinamento vesical, que consiste em reeducar a bexiga para reduzir o número de micções associado a tratamentos fisioterapêuticos, como a eletroestimulação vaginal ou transcutânea podem ser associados.
Na terapêutica medicamentosa, as drogas mais utilizadas são os antidepressivos tricíclicos - amitriptilina ou imipramina; anti-alérgicos - hidroxizine e o Pentosan Poli Sulfato (medicamento que repõem a camada de glicosaminoglicanos) são as mais utilizadas.
Além dos medicamentos via oral, outras drogas podem ser instiladas diretamente na bexiga através de sondagem vesical, como o DMSO 50% com Heparina - 6 sessões semanais; Ácido hialurônico 2x/semana por 6 semanas; Hidrodistensão Vesical ( distensão da bexiga com Soro Fisiológico).
Casos graves e sem resposta clínica podem se beneficiar de tratamenstos cirúrgicos como a Ressecção das Úlceras de Hunner via cistoscópica; a Ampliação Vesical; a Derivação Urinária com ou sem Cistectomia ( retirada da bexiga); Cistectomia.
A medida que novos estudos surgem sobre esta tão misteriosa doença, melhores tratamentos hão de surgir, trazendo alívio às pacientes que sofrem da SBD.